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Existe uma frase que circula bastante entre quem planeja um intercâmbio: "dá para trabalhar e se sustentar lá fora enquanto estuda." É verdade — mas só até certo ponto. O que muita gente não percebe é que cada país tem regras completamente diferentes sobre isso. E a diferença não é pequena.

Em alguns países, o visto de estudante já vem com autorização de trabalho automática, dentro de limites bem definidos. Em outros, essa permissão depende do tipo de curso, da instituição, da carga horária que você estuda por semana. Há ainda os casos onde o visto proíbe qualquer trabalho durante o período letivo, a menos que você solicite uma autorização separada.

Entender essas regras antes de escolher seu destino faz toda a diferença. Não só para o planejamento financeiro, mas para evitar uma violação de visto que pode comprometer não apenas o intercâmbio atual, mas as suas chances de conseguir qualquer visto no futuro.

Neste artigo, você vai ver exatamente o que cada país permite, com as regras atualizadas para 2026, para os destinos mais procurados por brasileiros.

O que você vai aprender:

  • Por que o visto de estudante não é o mesmo que autorização de trabalho
  • O que o Canadá permite em 2026 (e o que mudou recentemente)
  • As regras da Irlanda para quem estuda com o Stamp 2
  • Como funciona o limite por quinzena na Austrália
  • A atualização de Nova Zelândia que entrou em vigor em novembro de 2025
  • O que acontece se você ultrapassar as horas permitidas
  • Como usar esse conhecimento no seu planejamento

Visto de estudante não é autorização de trabalho automática

Antes de entrar nos números por país, é importante entender a lógica por trás das regras.

Quando um país concede um visto de estudante, ele está autorizando sua permanência com um objetivo claro: estudar. O trabalho, quando permitido, é tratado como atividade complementar — uma concessão para ajudar com despesas, não uma fonte principal de renda.

Isso tem duas consequências práticas. A primeira: o limite de horas existe para garantir que o estudo continue sendo a prioridade. Um estudante que trabalha 40 horas por semana dificilmente está focado no curso — e os governos sabem disso. A segunda: ultrapassar essas horas não é uma infração pequena. As consequências podem incluir cancelamento do visto, impossibilidade de renovação e registro negativo que aparece em aplicações futuras de vistos em outros países.

Com isso em mente, veja como cada destino trata esse tema.

Canadá: 24 horas semanais e mudança no co-op

O Canadá passou por uma série de mudanças na última década em relação ao trabalho de estudantes internacionais. Por um tempo, a regra foi 20 horas semanais. Depois, durante a pandemia, as restrições foram temporariamente suspensas. Em 2024, entrou em vigor a regra atual: 24 horas por semana durante o período letivo, com horas ilimitadas durante as férias acadêmicas oficiais.

Essa mudança se tornou permanente. Em maio de 2026, o IRCC (Immigration, Refugees and Citizenship Canada) confirmou que o limite de 24 horas segue vigente, sem previsão de alteração.

O que está incluído no limite:

  • Qualquer trabalho remunerado fora do campus, somando todas as fontes

  • Trabalho voluntário que se enquadre na definição de trabalho do IRCC

  • Empregos em múltiplos locais (as horas de todos os empregos se somam)

O que não conta para as 24 horas:

  • Trabalho remoto para empregador fora do Canadá — esse não entra no limite

  • Co-op e estágios obrigatórios vinculados ao currículo do curso (desde abril de 2026, esses não precisam mais de permissão de trabalho separada, desde que representem no máximo 50% da carga total do programa)

Para trabalhar no Canadá, você precisa:

  • Estar matriculado em uma Designated Learning Institution (DLI)

  • Cursar um programa de pelo menos 6 meses que resulte em diploma, graduação ou certificado

  • Ter um Social Insurance Number (SIN)

  • Estar em período integral

Durante as férias: Férias acadêmicas oficiais (inverno, primavera, verão) permitem trabalho em tempo integral — mas há um limite anual de 180 dias de trabalho em tempo integral durante essas pausas.

Uma atenção importante: exceder as 24 horas, mesmo que por uma hora, é uma violação das condições do estudo. O IRCC monitora isso cruzando dados de emprego com relatórios das instituições de ensino.

Irlanda: 20 horas com dois períodos de férias bem definidos

A Irlanda é um dos destinos mais procurados por brasileiros que querem combinar inglês com experiência profissional na Europa. O país permite trabalho para estudantes não-europeus que possuem o Stamp 2 — a permissão de residência concedida a estudantes de fora da UE/EEA matriculados em cursos elegíveis.

O limite durante o período letivo: 20 horas semanais.

Durante as férias: até 40 horas semanais, mas apenas em dois períodos fixos, que valem para todos os estudantes, independentemente do calendário da instituição:

  • De 1º de junho a 30 de setembro (verão)

  • De 15 de dezembro a 15 de janeiro (natal)

Esses datas são padronizadas pelo governo irlandês. Não importa se a sua escola tem férias em outros períodos — as horas extras de trabalho só são permitidas dentro dessas janelas.

Quem pode trabalhar:

  • Estudantes com Stamp 2 (visto de estudante de longa duração para cursos acima de 3 meses)

  • Inscritos em cursos da ILEP (Interim List of Eligible Programmes)

  • Com IRP card (Irish Residence Permit) em mãos

Quem não pode trabalhar:

  • Estudantes com Stamp 2A — essa modalidade não inclui permissão de trabalho

  • Estudantes em cursos de curta duração não listados na ILEP

Um ponto relevante: a Irlanda exige que o estudante tenha recursos financeiros suficientes para se manter — o trabalho parcial não é reconhecido como fonte primária de sustento no processo de visto. A comprovação financeira exigida é de pelo menos €10.000 por ano, além das mensalidades já pagas.

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Austrália: 48 horas por quinzena — e o que isso significa na prática

A Austrália usa um sistema diferente dos outros países: o limite não é semanal, e sim por quinzena — ou seja, a cada 14 dias contados a partir de uma segunda-feira.

Estudantes com o Subclass 500 Student Visa podem trabalhar até 48 horas por quinzena durante o período letivo, e horas ilimitadas durante as férias acadêmicas oficiais.

Na prática, isso equivale a cerca de 24 horas por semana — mas com uma flexibilidade que pode ser usada de forma inteligente. Você pode trabalhar 30 horas em uma semana e 18 na seguinte, desde que o total das duas não passe de 48.

Atenção ao cálculo: O limite se aplica a qualquer janela de 14 dias consecutivos, não apenas ao quinze dias do calendário. Isso significa que se você trabalhou 25 horas na semana 2 e 30 horas na semana 3, o total dessas duas semanas somadas é 55 horas — uma violação, mesmo que nenhuma semana individualmente tenha passado de 30.

Exceções:

  • Mestrado por pesquisa e doutorado (PhD): sem limite de horas

  • Estágios e placements que fazem parte obrigatória do currículo do curso: não contam para o limite

Durante as férias: Trabalho em tempo integral é permitido durante as férias acadêmicas oficiais. Não valem períodos de descanso autodeclarados — precisa estar no calendário oficial da instituição.

O salário mínimo australiano em 2026 é de AUD $24,95 por hora. Trabalhadores casuais (a maioria dos estudantes) têm acesso a um adicional de 25%, chegando a AUD $31,19/hora. Trabalhar as 48 horas permitidas por quinzena, ao salário mínimo casual, gera aproximadamente AUD $2.400 por mês brutos.

Nova Zelândia: a mudança mais recente do grupo

Em novembro de 2025, a Nova Zelândia atualizou suas regras e passou a permitir 25 horas semanais durante o período letivo para estudantes elegíveis — um aumento em relação às 20 horas anteriores. A mudança entrou em vigor em 3 de novembro de 2025 e se aplica a todas as vistos emitidos a partir dessa data.

Quem se enquadra no novo limite de 25 horas:

  • Estudantes universitários e de politécnicos em tempo integral

  • Estudantes do ensino médio nos anos 12 e 13 (com permissão dos pais e da escola)

  • Estudantes de inglês em cursos que atendam condições específicas da Immigration NZ

  • Estudantes de exchange ou Study Abroad aprovados, incluindo programas de um semestre

Quem não tem limite de horas:

  • Estudantes de mestrado por pesquisa e doutorado

Durante as férias: Trabalho em tempo integral durante pausas acadêmicas programadas e no período de natal/ano novo.

Quem já estava na Nova Zelândia com um visto de 20 horas precisou pedir uma variação de condições (a um custo de NZD $325) ou aguardar a renovação do visto para ter acesso ao novo limite.

O que acontece se você ultrapassar o limite

A resposta curta: as consequências são sérias.

Em todos os países citados, trabalhar além do permitido é uma violação das condições do visto. As implicações variam, mas podem incluir:

  • Cancelamento do visto

  • Impossibilidade de obter futuras autorizações de trabalho ou estudo no mesmo país

  • Registro negativo que aparece em aplicações para outros países

  • No Canadá especificamente, pode comprometer a elegibilidade para o Post-Graduation Work Permit (PGWP) — o visto de trabalho pós-conclusão que é um dos caminhos para a residência permanente

Isso não é teoria. A Austrália registrou 12.400 cancelamentos de visto por violações relacionadas ao trabalho apenas em 2024. O Canadá vem intensificando o monitoramento desde 2025, cruzando dados de matrícula com registros de emprego.

A forma mais segura de se proteger é simples: registre suas horas semanalmente, mesmo que você não esteja chegando perto do limite. Se trabalha em mais de um emprego, some tudo. Se tiver dúvida sobre o que conta ou não, consulte o site oficial do governo antes de aceitar qualquer turno extra.

Como usar esse conhecimento no seu planejamento

Saber o limite de horas é o começo — mas o planejamento precisa ir além disso.

Primeiro passo: calcule se o trabalho parcial cobre o que você precisa. No Canadá, trabalhar 24 horas por semana ao salário mínimo de CAD $17/hora gera cerca de CAD $1.600 brutos por mês. Em Toronto ou Vancouver, o custo de vida facilmente passa de CAD $2.500 por mês. A conta não fecha sozinha.

Segundo passo: pense no tipo de curso. Programas de idiomas de curta duração frequentemente não dão direito a trabalho. Programas universitários de pelo menos 6 meses costumam dar. A escolha do curso afeta diretamente sua capacidade de trabalhar enquanto estuda.

Terceiro passo: considere as férias. Os períodos em que o trabalho em tempo integral é permitido podem ser usados estrategicamente para economizar dinheiro e cobrir o custo dos meses letivos.

Quarto passo: entenda que o trabalho complementa o intercâmbio, mas não o financia. Quem vai para o exterior contando exclusivamente com o salário parcial como fonte de sustento quase sempre enfrenta problemas financeiros ao longo do caminho.

Preparação internacional completa em um só lugar

As regras de trabalho para estudantes internacionais mudaram bastante nos últimos dois anos.

O Canadá fixou o novo limite de 24 horas. A Nova Zelândia subiu de 20 para 25 horas em novembro de 2025. A Austrália manteve o modelo por quinzena com 48 horas. A Irlanda segue com 20 horas durante o período letivo e dois janelas fixas de trabalho em tempo integral nas férias.

Nenhum desses destinos proíbe o trabalho — mas todos o limitam. E entender essa diferença antes de embarcar é o que separa quem planeja bem de quem chega lá e precisa improvisar.

Se você leu até aqui, é sinal de que o intercâmbio já não é só um plano vago — é algo que você está pensando com seriedade. E quando se pensa com seriedade, o próximo passo é estratégia.

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Foto de capa por Global Residence Index na Unsplash